Em entrevista ao Centro MAGIS Inaciano de Juventude (CIJ), a engenheira ambiental, ambientalista e jovem liderança política Cindy Carvalho reflete sobre justiça socioambiental, participação das juventudes, esperança e cuidado com a Casa Comum
Justiça socioambiental começa quando reconhecemos que cuidar da Casa Comum também é cuidar das pessoas
As mudanças climáticas, as desigualdades sociais e os desafios ambientais estão entre as questões que mais impactam a vida das juventudes no mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo, cresce o protagonismo de jovens que compreendem que defender a vida passa também pela defesa do meio ambiente, da dignidade humana e da participação cidadã.
Dando continuidade à série de entrevistas e artigos sobre temas que atravessam a realidade juvenil, o Centro Inaciano de Juventude (CIJ) conversou com Cindy Carvalho, estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária, ambientalista, porta-voz da Rede Sustentabilidade no Ceará e jovem atuante na incidência política.
Na conversa, Cindy compartilha como descobriu sua vocação para a causa socioambiental, fala sobre o papel das juventudes diante da crise climática, reflete sobre participação política e deixa uma mensagem de esperança para os jovens que caminham na missão da Rede MAGIS Brasil.
“Falar de meio ambiente também é falar de justiça social”
Como você percebeu que as questões socioambientais deixaram de ser apenas um interesse para se tornarem parte da sua missão de vida?
Acredito que essa consciência foi sendo construída ao longo da minha vida. Desde pequena, sempre tive uma conexão muito forte com a natureza e com as pessoas. Cresci vendo minha mãe ensinar que cuidar do meio ambiente não era apenas não jogar lixo no chão, mas compreender que isso tem relação direta com saúde, dignidade e qualidade de vida.
Quando escolhi cursar Engenharia Ambiental e Sanitária, percebi que esse interesse havia se tornado algo maior: uma missão. Embora a engenharia seja uma área muito técnica, aos poucos fui entendendo que, por trás dos dados e cálculos, existem pessoas.
Os impactos ambientais atingem de forma desigual as populações mais vulneráveis. Quem mais sofre com enchentes, calor extremo, falta de saneamento e poluição geralmente são aqueles que têm menos acesso a direitos. Foi nesse momento que compreendi que falar de meio ambiente também é falar de justiça social.
Juventudes como presente da transformação
A juventude ainda costuma ser vista como “o futuro”. Como você percebe o lugar das juventudes nas discussões ambientais hoje?
Costumo dizer que a juventude não é apenas o futuro. Ela é presente, potência e transformação agora.
As juventudes têm ocupado espaços importantes nas discussões ambientais, trazendo urgência, criatividade e coragem para pautar temas que muitas vezes foram negligenciados por gerações anteriores. Ao mesmo tempo, ainda enfrentamos um desafio importante: sermos ouvidos para além do simbolismo.
Muitas vezes, jovens são convidados para compor mesas, campanhas e eventos, mas sem participação efetiva nos processos de decisão. Isso precisa mudar. A participação não pode terminar no convite; ela precisa fazer parte das escolhas.
Somos nós que vivemos de forma intensa os impactos da crise climática e das desigualdades socioambientais. Não faz sentido discutir soluções sem escutar quem experimenta esses efeitos no cotidiano. Quando os jovens participam de verdade, surgem inovação, sensibilidade e novas perspectivas.
Justiça socioambiental também é combater desigualdades
Quais desafios socioambientais mais afetam hoje as juventudes de Fortaleza e do Ceará?
Os desafios são muito concretos. Ondas de calor, eventos climáticos extremos e insegurança hídrica já fazem parte da nossa realidade. Jovens das periferias sentem esses impactos de maneira ainda mais intensa.
A falta de saneamento básico, a gestão inadequada de resíduos, a ocupação desordenada do território e a desigualdade no acesso às áreas verdes afetam diretamente a saúde, a mobilidade, o lazer e a qualidade de vida.
Mas existe um elemento central: a desigualdade. Nem todos sofrem esses impactos da mesma forma. Quando olhamos para juventudes quilombolas, indígenas, ribeirinhas, do campo e de comunidades tradicionais, essa realidade se torna ainda mais evidente.
Tenho consciência dos privilégios que possuo por morar na capital e ter acesso a direitos básicos, como o saneamento. Isso aumenta minha responsabilidade de lutar para que outros jovens também tenham essas oportunidades. Justiça socioambiental significa reconhecer essas desigualdades e agir para transformá-las.
Ocupar espaços de decisão
Sua trajetória também passa pela participação política. O que motivou essa escolha?
Minha entrada na política institucional nasceu da inquietação.
Durante muito tempo atuei em movimentos sociais, conselhos e projetos, mas percebi que, para transformar certas realidades de maneira estrutural, também precisamos ocupar os espaços onde as decisões são tomadas.
Ser jovem na política ainda é bastante desafiador. Muitas vezes nossa capacidade é subestimada, como se experiência fosse sinônimo de idade. Sendo uma mulher jovem, esses desafios são ainda maiores.
Ao mesmo tempo, descobri uma força enorme nisso. A juventude tem coragem para dizer o que muitas vezes outras pessoas deixam de dizer, sempre com responsabilidade e disposição para o diálogo.
A política precisa de mais diversidade geracional, mais escuta e mais conexão com as pessoas. Ocupar esses espaços também significa abrir caminhos para que outros jovens sintam que pertencem a eles.
“Esperança é movimento”
Como cuidar da saúde emocional e manter a esperança diante das urgências da crise socioambiental?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes.
Quem atua com causas socioambientais convive diariamente com dados alarmantes, injustiças e dores coletivas. Sem cuidar da saúde emocional, o ativismo pode se transformar em um espaço de esgotamento.
Tenho aprendido que esperança não é negar a realidade, mas escolher continuar agindo apesar dela.
Isso passa por respeitar nossos limites, construir redes de apoio, celebrar pequenas conquistas e lembrar que ninguém sustenta essa luta sozinho. A transformação social é sempre coletiva.
Também encontro muito sentido nas conexões. Quando vejo jovens se mobilizando, comunidades se organizando e pessoas dispostas a construir mudanças, minha esperança se renova.
Para mim, esperança não é algo passivo. Esperança é movimento. E justamente por ser movimento, ela nunca para. É ela que nos faz continuar plantando, mesmo quando ainda não conseguimos ver todos os frutos.
Uma mensagem para as juventudes
Que mensagem você gostaria de deixar para os jovens que acompanham o CIJ e a Rede MAGIS Brasil?
Não subestimem a força que vocês têm.
Mesmo quando o mundo parece difícil, desigual ou desanimador, a presença de juventudes comprometidas com a transformação faz diferença real.
Vocês não precisam esperar o momento perfeito para começar a agir. Ele simplesmente não existe. Toda grande mudança começou quando pessoas comuns decidiram não ser indiferentes.
Cuidar da Casa Comum também é cuidar uns dos outros. É defender a vida em todas as suas formas. Não existe sustentabilidade sem justiça, sem dignidade e sem amor ao próximo.
Busquem conhecimento. Ele é uma das ferramentas mais poderosas que temos para transformar o mundo e ninguém pode tirar isso de vocês.
E, acima de tudo, não deixem que lhes roubem a esperança. A esperança move, organiza e transforma.
Sobre a entrevistada:
Cindy Carvalho é Conselheira dos Direitos das Mulheres e da Juventude e porta-voz da Rede Sustentabilidade Ceará. Graduanda em Engenharia Ambiental e Sanitária, com atuação em políticas públicas voltadas à justiça de gênero, à justiça socioambiental e à participação social.
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