Ryan Kilbert Sampaio Antonino
Pastoralista do Centro MAGIS Inaciano da Juventude
Desde bem cedo, os jovens são apresentados a um horizonte aparentemente ilimitado de possibilidades. São chamados de talentosos, incentivados em múltiplas áreas, elogiados por suas habilidades: ora nos estudos, ora nos esportes, ora nas artes. No entanto, com o passar do tempo, essa multiplicidade de caminhos deixa de ser apenas promessa e passa a se tornar peso. As exigências se acumulam, as escolhas se tornam mais rígidas e o que antes era expressão espontânea de dons vai sendo moldado por expectativas externas e pelas pressões de um mercado cada vez mais competitivo.
À medida que crescem, os jovens vão percebendo que o mundo não é só aquele lugar cheio de possibilidades, ele também é atravessado por crises. Pelas redes sociais e pelos noticiários, eles acompanham guerras, veem a instabilidade das instituições democráticas e sentem de perto o enfraquecimento de direitos que pareciam garantidos, especialmente para mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e outros grupos historicamente marginalizados.
ANGÚSTIA
E esses fatores não ficam distantes, eles atravessam o jeito de pensar o futuro. Assim, aquele rapaz que sonhava em ser engenheiro ou a jovem que queria ser professora vão, pouco a pouco, se vendo dentro de uma realidade que cobra respostas rápidas, mas oferece poucos caminhos seguros. Ainda há uma expressiva juventude que quer ter uma carreira no campo das ciências, da tecnologia ou das mais diversas profissões liberais, conforme aponta o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico0F1, mas essa juventude é desestimulada no meio de tantas pressões, da instabilidade econômica e do medo de não dar conta, muitos acabam encurralados sem saber exatamente para onde ir, nem como transformar seus dons em um caminho possível.
Se antes parecia que bastava fazer uma faculdade para garantir estabilidade, hoje essa promessa já não se sustenta tão facilmente. Mesmo com a ampliação do acesso ao ensino superior o caminho até lá continua difícil para muitos jovens. E, para quem consegue chegar, o mercado se mostra cada vez mais exigente e restrito. Apesar disso, o diploma, que antes simbolizava segurança, já não assegura mais um lugar. É nesse cenário que cresce a chamada “uberização” do trabalho. Quantos motoristas e entregadores de aplicativo já foram jovens cheios de sonhos? Quantos saíram da faculdade frustrados por não encontrar espaço na própria área?
Esses serviços, é verdade, facilitam o nosso dia a dia e são amplamente necessários. Depois de um dia cansativo, pedir um lanche ou dividir uma corrida parece algo simples para quem consome. Mas, do outro lado da tela, existe um trabalhador, muitas vezes jovem, que enfrenta jornadas exaustivas, sem garantias, com renda instável e pouca proteção legal. E, quando não seguem por esse caminho, muitos ainda apostam nos concursos públicos, outro símbolo de estabilidade que também se torna cada vez mais distante, com menos vagas e maior concorrência. Diante disso, fica a pergunta: que caminho resta para os sonhos daquele rapaz e daquela moça?
A aspiração dos homens e das mulheres é, quase sempre, dupla: segurança e algo mais. Segurança diante das eventualidades: na doença, a garantia da saúde; nas dívidas, a busca por um salário justo; nas incertezas, no acesso a uma educação decente. E esse “algo mais” que aparece não é, necessariamente, como o magis da espiritualidade inaciana, mas como o desejo de realizar, conhecer e possuir mais. Tal é a aspiração dos homens de hoje, mesmo quando um grande número deles está condenado a viver em condições que tornam ilusório esse desejo legítimo1F2. Querer mais, contudo, não implica saber o que se quer e, a partir disso, buscar a melhor e maior expressão dos próprios dons. Por isso, torna-se necessária uma rede interdisciplinar, acolhedora e capaz de acompanhar o jovem na construção de um projeto de vida autêntico.
PARALISIA
Um dia qualquer, numa cidade qualquer, em um ano qualquer, um burrinho muito bacana estava com fome. Caminhou, caminhou, até chegar a um lugar onde havia dois montes de feno à mesma distância. Olhou para os dois, tentou discernir qual era o melhor. Pelejou, sofreu, queimou seus neurônios asininos. Não conseguiu decidir. Aquele burro bacana, diante de duas possibilidades de saciar seu desejo fundamental, ficou paralisado e morreu de fome. Na verdade, morreu de indecisão.
Muitas possibilidades geram paralisia, e a paralisia paralisa a vida, porque viver é movimento. A história do Asno de Buridan, presente em diferentes versões ao longo do tempo, expressa bem essa realidade. Sabemos que existem muitas opções, mas nem sempre sabemos discernir. E, numa perspectiva mais concreta, muitos acabam escolhendo apenas para garantir a sobrevivência. Investem a vida no mínimo necessário, com medo de arriscar em direção à própria autenticidade. Outros, por sua vez, miram ideais tão altos e distantes que acabam sendo engolidos pela frustração.
O trabalho é, antes de tudo, realização da pessoa humana. É no servir que nos colocamos em relação com o outro2F3, como nos recorda o Jovem Galileu, que veio para servir e não para ser servido. É no trabalho que nos reconhecemos parte de uma coletividade e contribuímos para a construção do Reino e de uma sociedade mais justa e fraterna. Descobrir-se pessoa e tornar-se aquilo que se é constitui a realização última do projeto de vida3F4. Nomear e assumir o próprio desejo vocacional é também participar da construção de um mundo novo. Existem, sim, muitas possibilidades. Mas, no fundo, cada um é chamado a reconhecer qual daqueles montes de feno responde, de forma mais verdadeira, ao desejo da própria alma.
CORAGEM
Apesar da ansiedade e do medo, é preciso seguir caminhando na direção dos próprios sonhos, sem perder a audácia de tentar e de assumir aquilo que se escolhe, para, a partir disso, florescer e embelezar o mundo. Não há respostas fáceis nem caminhos livres de insegurança. Mas a nós, enquanto rede de juventudes e sociedade que busca ser mais fraterna, cabe oferecer espaços5 onde o jovem possa se desenvolver e compreender o trabalho não como consumo da própria vida, mas como meio digno de subsistência e construção coletiva.
Iniciativas não faltam: acompanhamento e orientação vocacional, valorização de bons exemplos nas diversas profissões, políticas de inclusão, programas de estágio dignos, feiras de profissões nas escolas. Do jovem que sonha em ser músico ao que deseja advogar, da jovem que quer ser engenheira à que almeja empreender, todos precisam de força para assumir o que desejam e de oportunidades reais para florescer. Assumir o próprio projeto de vida6 é um passo decisivo para enfrentar o excesso de escolhas, focando naquilo que se é, e superar a escassez de sentido, buscando uma vida mais autêntica.
ESPERANÇA
“A tomada de consciência da possibilidade de autoria traz consigo a consciência da responsabilidade do agir, do eximir-se de agir e também, das contingências para a ação. É empoderamento.” (OMOTO GABRIEL Rachel, 2020)7
Construir um projeto de vida não é apenas organizar metas ou escolher uma profissão, mas assumir, com liberdade e responsabilidade, a própria história. É nesse processo que a pessoa se reconhece como autora do seu caminho, capaz de dar direção aos próprios passos em meio às incertezas. Mais do que responder às expectativas externas, trata-se de descobrir o que faz sentido de verdade e de se comprometer com isso.
Nesse sentido, o projeto de vida se torna um espaço de autenticidade e de empoderamento: não porque elimina os medos ou garante respostas prontas, mas porque devolve ao jovem a consciência de que sua vida não está à deriva, e sim nas suas mãos, mesmo diante dos limites da realidade. É justamente nessa dinâmica entre escolha, responsabilidade e sentido que o trabalho se insere como parte fundamental da construção da vida.
Não por acaso, no dia 1º de maio, a Igreja propõe o olhar para São José Operário como aquele que, no cotidiano simples, autêntico e fiel, revela que o sentido da existência também se constrói nas escolhas concretas e no trabalho vivido com dignidade8. Desde 1º de maio de 1955, a partir do discurso de Papa Pio XII aos trabalhadores, a Igreja celebra de modo especial essa dimensão do trabalho. Nele, carpinteiro e homem do cotidiano, encontramos um sinal de que o sentido da vida também se revela no ordinário, nas escolhas bem discernidas e numa existência colocada a serviço dos outros.
Como nos mostrou Alberto Hurtado: independentemente do caminho que escolha, o jovem é chamado a lembrar que carrega em si um fogo, capaz de iluminar e aquecer um mundo muitas vezes frio e cansado, despertando e aquecendo outros corações. E nós, enquanto Igreja, não podemos deixar de promover uma espiritualidade do trabalho que seja digna, humanizadora e perseverante, assim como sonhou João Paulo II: “A mensagem cristã não afasta os homens da tarefa de construir o mundo, nem os leva a desinteressar-se do bem dos seus semelhantes, mas, pelo contrário, obriga-os a aplicar-se a tudo isto por um dever ainda mais exigente”.4F9
Jovem, assuma as rédeas dos seus sonhos. E que, juntos, possamos construir um futuro cheio de esperança!



