O cuidado integral das juventudes: a cura personalis e contribuições da espiritualidade inaciana

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Homem sentado e inclinado para frente, em atividade de escrita ou reflexão, sobre fundo amarelo com ilustrações em tons de laranja e verde que remetem à natureza e à vegetação.

Juventudes: uma realidade plural e situada

Geovane Alves de Castro

Quando se trabalha com juventude, é inevitável deparar-se com questionamentos sobre o que é ser jovem ou quem é a juventude. Para o Estatuto da Juventude, Lei nº 12.852/2013, “são consideradas jovens as pessoas com idade entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos de idade”. Adota-se, portanto, um critério etário para definir esse grupo.

Esse critério, no entanto, acaba por reduzir a compreensão sobre esses sujeitos ao fator biológico, escondendo uma complexidade que envolve essa definição. Pois, enquanto para alguns jovens a transição para a vida adulta é marcada pela expansão de possibilidades e escolhas, para outros ela é definida pela urgência do trabalho e pela escassez de oportunidades. Esse contraste evidencia que a condição juvenil é profundamente plural. Não existe uma receita única para ser jovem. O que existem são trajetórias moldadas por contextos históricos, geográficos e sociais que ditam ritmos e realidades completamente diferentes.

Essa pluralidade é evidenciada por fatores tais como os marcadores sociais de classe, raça, gênero, território e disparidades de acesso tecnológico. Esse contexto conduz as juventudes a desafios muito concretos como urgências materiais, educacionais, sociais e psíquicas que influem no desenvolvimento pleno de parcelas desse grupo no tempo presente.

Desigualdades, expectativas e o direito de ser jovem no presente

As desigualdades econômicas forçam jovens, por exemplo, a enfrentarem duplas jornadas ingressando precocemente no mercado de trabalho ao passo que continuam ou mesmo abandonam a formação educacional. Tal fato pode implicar na limitação do “ócio formativo”, ou tempo de lazer, convivência e “curtição”, diferindo radicalmente das vivências de jovens de classes mais abastadas. Outro desafio é a angústia diante de um mercado laboral desestruturado e instável (“precariado”), o que é potencializado por uma constante cobrança e ansiedade para “definir o futuro” e “adquirir responsabilidades” em meio a incertezas socioeconômicas e crises estruturais.

Outro risco no que tange à compreensão das juventudes é aquele que enxerga os jovens pela lógica da “incompletude”, caracterizando esses sujeitos a partir de um “vir a ser”, entendendo sua condição como um estágio de passagem e preparação para a vida adulta, destituindo-os de dignidade e valor no momento presente. Frente a isso, é importante reconhecer as juventudes como sujeitos de direitos no presente, dotados de voz e capacidade de ação no mundo.

As dores e os sofrimentos das juventudes contemporâneas

Uma característica do contexto juvenil atual, que ganha relevo com a massiva presença de jovens nas redes sociais, é a centralidade do corpo, da imagem pessoal, do ideal de saúde e desempenho na maneira de viver essa etapa da vida. Esses fatores geram uma certa pressão social que afetam o psiquismo e a saúde mental, provocando mal-estar e evoluindo para um estado de cobrança permanente, estresse, ansiedade, entre outras reações somáticas.

Outra característica da sociedade contemporânea que reflete nas juventudes é a cultura do consumismo e do individualismo, a qual exacerba a busca por gratificações imediatas e acaba por enfraquecer a experiência e os laços comunitários. Nesse âmbito, cabe falar ainda da vivência de desinvestimento afetivo inicial, manifestada por contextos de famílias ausentes, cobrança e sobrecarga referente ao percurso escolar, cujo resultado pode sucumbir em um narcisismo negativo e em sentimentos de solidão e desamparo. Tais sofrimentos manifestam-se entre as juventudes e são perceptíveis nos altos índices de ansiedade e depressão, na automutilação chegando mesmo à ideação suicida. Ante o vazio existencial, jovens se deparam com tentativas rasas de alívio seja na adicção, no consumo, no fechamento em bolhas ideológicas ou na adesão a discursos rígidos e fundamentalistas que oferecem falsas certezas.

Diante das dores: qual acompanhamento pastoral oferecer?

Frente a esse contexto juvenil plural, no qual as juventudes são marcadas pela vivência de diferentes desafios, como pensar o acompanhamento pastoral, especialmente diante das situações de sofrimento nas quais as juventudes se inserem? Que recursos e posturas os(as) acompanhadores(as) podem lançar mão para a realizar sua missão junto às juventudes?

A cura personalis: um cuidado encarnado e integral

A tradição inaciana, que nasce da experiência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, oferece uma concepção que pode orientar o cuidado e o acompanhamento pastoral de jovens. Inácio concebeu a partir da experiência dos seus Exercícios Espirituais e previu como parte do modo de proceder da Companhia de Jesus algo que ele nomeou como cura personalis, compreendida como um cuidado encarnado, que acolhe a pessoa na sua totalidade sem reducionismos.

O padre jesuíta Adroaldo Palaoro, SJ destaca que o acompanhamento inaciano se enraíza na cura personalis como uma experiência de proximidade e acolhida (“estar-com-o-outro” como companheiro de caminhada). A pastoral juvenil e os Exercícios Espirituais recuperam a força do encontro presencial ao oferecerem uma presença “instigante e provocativa”. O acompanhante não impõe fórmulas prontas ou dogmas paralisantes, mas lança perguntas existenciais que ajudam o jovem a tomar consciência de si e a se tornar autor e peregrino do seu próprio sentido.

Espiritualidade e saúde mental: dimensões que não se substituem

A dimensão espiritual é parte essencial do ser humano e uma fonte primordial de sentido, esperança e autotranscendência. Desse modo, “o crescimento humano e o crescimento espiritual estão inseparavelmente associados”. Neste contexto, o acompanhamento espiritual é insubstituível para despertar o discernimento e a busca de sentido da juventude, mas não pode ser apresentado como um remédio autossuficiente para todas as dores. Quando a pastoral reduz sofrimentos psíquicos ou sociais a meras “faltas de fé”, ela falha na verdadeira cura personalis, que exige reconhecer os limites da intervenção estritamente espiritual.

Um estudo sobre saúde mental evidencia como o contexto contemporâneo produz altos níveis de estresse, ansiedade, exaustão emocional e adoecimento psíquico, como já refletimos anteriormente. A espiritualidade inaciana reconhece que a vida interior é um cenário humano profundamente complexo, marcado por batalhas afetivas e estados emocionais que exigem leitura atenta (“nada é simples, tudo é complexo”).

Palaoro aponta que o papel de quem acompanha espiritualmente é modesto e subordinado à realidade do sujeito. A Igreja e as comunidades de fé não competem com a ciência psicológica; pelo contrário, o cuidado profissional da saúde mental trata das estruturas psíquicas e do sofrimento clínico que a orientação espiritual não abrange. Psicólogos, acompanhadores espirituais e pastorais das juventudes figuram lado a lado na mesma estrutura comunitária de cuidado.

Uma comunidade de fé madura demonstra seu compromisso ético e pastoral quando sabe encaminhar e apoiar o acompanhamento psicológico profissional. Apoiar o cuidado psíquico não fragiliza a fé do jovem, mas garante as condições emocionais necessárias para que ele possa exercer plenamente sua liberdade e seu discernimento.

O coração encarnado da cura personalis

Catherine Peters enfatiza que a cura personalis possui um “coração encarnado”. A Encarnação significa que o cuidado divino e comunitário se dá no ser humano concreto — em sua história, corpo, psique e contexto social. Palaoro recorda a necessidade de desenvolver de forma integrada os “três olhos do conhecimento” (os sentidos, a razão e o espírito) e mobilizar todas as dimensões da pessoa (corpo, sentimento, inteligência e memória). A isolação ou fragmentação de qualquer uma dessas partes desvirtua a experiência do cuidado.

Cuidar da pessoa inteira: um caminho comunitário

A partir das reflexões acima apresentadas, podemos concluir que o caminho do cuidado integral das juventudes percorre um itinerário que abarca: o encontro comunitário sensível que retira o jovem do isolamento, oferece pertencimento e o acompanha na tomada consciência sobre seu contexto; a espiritualidade que oferece horizonte de sentido, transcendência e vocação; e a saúde mental que fornece sustentação emocional e diagnóstica para enfrentar os conflitos psíquicos. Nenhuma dessas frentes sozinha esgota a experiência humana das juventudes. Cuidar da pessoa inteira significa promover a convergência harmoniosa dessas três dimensões.

Cuidar integralmente das juventudes implica, portanto, atuar simultaneamente no combate às desigualdades materiais, na oferta de um acompanhamento acolhedor e no suporte à saúde mental, existencial e espiritual. Reconhecer a potência e o valor presente das juventudes é um dever ético e social indispensável para a construção de uma sociedade justa, democrática e solidária

Referências

ARAÚJO, Jarliane Lima. RODRIGUES, Vitoria Sandy dos Santos. NUNES, Edilon Mendes. Saúde mental no ambiente corporativo: estratégias organizacionais para enfrentar os desafios contemporâneos. Revista FT – Ciências Humanas, Volume 30 – Edição 154/JAN 2026 / 31/01/2026.

BARTH, Luisa Carolina Charczuk Viana. OLIVEIRA, Victor Hugo Nedel. Juventudes escolarizadas: Entre representações de si e os desafios de ser jovem. Estrabão, 6, 61–71.

DENTZ, René Armand. Juventude, busca por sentido e espiritualidade. Revista Caminhos – Revista de Ciências da Religião, Goiânia, Brasil, v. 22, n. 2, p. 483–491, 2024.

FLACSI – Federação Latino Americana dos Colégios da Companhia de Jesus. O caminho para a comunicação efetiva e criativa. Linguagem Comum. Manual de comunicação das instituições educacionais membros da FLACSI. Disponível em: https://www.flacsi.net/wp-content/uploads/2018/12/PT1-Manual-Linguagem-Comum.pdf

PALAORO S.J., Aldroaldo. A Espiritualidade Inaciana como “princípio e fundamento” da missão educativa na Companhia de Jesus. Centro Virtual de Pedagogia Inaciana. 2010.

PETERS, Catherine. “Cura Personalis: the Incarnational Heart of Jesuit Education.” Jesuit Higher Education: A Journal Vol. 11: No. 1 (2022) . Available at: https://digitalcommons.lmu.edu/jhe/vol11/iss1/3

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