Maria Carvalho de Jesus (Ir. Lúcia) Religiosa Missionária de Nossa Senhora das Dores,
Especialista em Juventudes no Mundo Contemporâneo pela FAJE,
assessora de juventudes e acompanhante da PJMP.
colaboradora do Centro MAGIS Inaciano de Juventudes
em Fortaleza.
Falar sobre as juventudes na atualidade exige, antes de tudo, compreender que é preciso conhecer, abrir o coração e tirar as sandálias, pois o chão onde pisamos é sagrado. Pensando no chão de uma juventude que tem seu território como algo original e ancestral, a prática do acompanhamento pastoral deve se manifestar em uma escuta ativa, profunda, e em uma acolhida respeitosa e afetuosa. No cenário eclesial e social em que vivemos, caminhar ao lado das juventudes como um todo e, de maneira especial, do povo Anacé tem sido uma verdadeira escola de sensibilidade e de aprendizado. Essa caminhada nos ensina que o papel de quem acompanha não é o de ditar regras ou dar respostas prontas, mas o de ser presença significativa, abrindo os braços para acolher a realidade como ela se apresenta e abrindo o coração para escutar o jovem em toda a sua integralidade.
O “Projeto de Vida” de um jovem Anacé não nasce do isolamento ou de uma busca solitária por sucesso individual. Ele é gerado no ventre da comunidade, com os pés fincados na ancestralidade e de mãos dadas com a história de cada parente. Por isso, o processo de acompanhamento exige visitas às aldeias, marcadas por uma postura de escuta que não julga, mas que acolhe as angústias e sofrimentos das juventudes. Sonhar junto, sendo apoio na realização de suas buscas e lutas que incluem todas as gerações do Povo Anacé, desde os curumins aos “troncos velhos”, que são os mais experientes e sabedores de sua cultura, é pensar em uma coletividade atravessada por um tríplice urgência que ecoa no presente: a luta constante pela defesa da terra, o dever de manter viva a cultura e os rituais sagrados, e a batalha cotidiana por trabalho e sobrevivência. Afinal, a terra para eles é mãe. E a mãe é vida, e da mãe a gente cuida.
CLAMOR
A potencialidade e a riqueza da mística Anacé convivem diariamente com a dureza de uma realidade marcada pelas violências físicas e simbólicas sofridas constantemente pelas comunidades. O território do povo Anacé constitui o guardião do sagrado de suas origens e ancestralidade, lugar onde habitam os Encantados e que torna possível a subsistência no próprio chão sagrado.
Nas escutas atentas realizadas durante as visitas, ecoa o sofrimento dos jovens por serem muitas vezes excluídos, pelas violências sofridas em seus territórios e nas retomadas de suas terras que um dia foram tomadas deles. Há também a busca constante por trabalho que lhes permita subsistir em seu próprio território.
É exatamente nesse momento que precisa acontecer o acompanhamento: ser presença, colo que aconchega, espaço que orienta e que ajuda a sonhar, a acreditar em suas potencialidades e a perceber que não estão sozinhos. Acompanhar é ajudar a discernir, oferecendo um espaço seguro em que o jovem se sinta confortável para partilhar suas buscas, inquietações e incertezas, mas também suas alegrias, sem pressa, ou seja, no tempo dele.
APAGAMENTO
Para compreender as dinâmicas que atravessam esse chão, é preciso recorrer a um conceito de juventude que supera a mera barreira biológica. Refere-se a um período da vida e a uma transição marcada por mudanças psicológicas e sociais, consolidando-se como uma categoria social e uma geração. Essa noção de geração remete à similaridade de experiências de indivíduos que compartilham o mesmo momento histórico sob os mesmos condicionantes conjunturais. É a partir desse ponto de vista que as juventudes deixam de ser invisíveis e passam a atuar como autênticos atores sociais, reivindicando direitos fundamentais como educação, cultura, subsistência e a proteção de suas terras. No entanto, essa transição não ocorre em um vácuo social.
A categoria juventude é, simultaneamente, uma representação social e uma situação concreta, tecida a partir de vivências comuns. Contudo, ela não pode ser encarada como uma categoria homogênea. As experiências juvenis variam drasticamente conforme as condições sociais, de gênero e, fundamentalmente, étnico-raciais. É por isso que a sociologia e a nossa prática pastoral exigem o uso do plural: juventudes.
No caso do povo Anacé, esse plural ganha contornos de resistência contra as violências físicas e simbólicas que eles sofrem o tempo todo. A juventude indígena rompe a lógica da homogeneização e do isolamento individualista propostos pelo modelo de sociedade atual. Enquanto o sistema tenta paralisar os corpos e silenciar as vozes por meio da negação do direito ao território ancestral e das dificuldades de subsistirem no próprio chão devido a pressões externas, esses jovens encontram na mística comunitária, no pertencimento tradicional e na força dos Encantados a coragem para se afirmarem como atores políticos, transformando o que seria paralisia em comunhão e profecia.
Nas conversas ao redor do fogo, nos momentos de partilha espontânea e nas visitas às aldeias Anacé, o que se escuta é um coração juvenil que pulsa em sintonia com a coletividade. O projeto de vida do jovem Anacé está profundamente fincado em seu chão sagrado. Eles carregam a clareza de que, sem a terra demarcada e protegida, não há onde semear a vida, plantar, erguer o teto ou celebrar os mistérios do sagrado. Romper com essa conexão gera um vazio existencial e comunitário que paralisa a caminhada de um povo e de sua cultura. É por isso que a ação pastoral atua diretamente no solo da identidade: sentar-se com o jovem no chão e acolher o seu orgulho de ser indígena é o cuidado essencial contra o esquecimento e o apagamento cultural.
AUDÁCIA
A partir dessa acolhida afetiva, guiada pela pedagogia libertadora da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), a escuta se torna qualificada, transformadora e geradora de frutos. No território Anacé, essa caminhada ganha vida e coragem nos primeiros passos de organização de um novo grupo de base. Através da promoção dos encontros e, de forma muito especial, nas missões de final de semana, a semente do protagonismo vai germinando. Nesses momentos de missão comunitária, trabalha-se intensamente a espiritualidade encarnada e o jeito próprio de ser jovem participando ativamente da comunidade.
É na vivência comunitária, no partilhar da vida com os irmãos de caminhada, que eles descobrem que ser jovem na Igreja é sinônimo de alegria, compromisso e profecia. Essa espiritualidade ganha corpo nos rituais sagrados, na força do Toré, nas danças tradicionais e nas pinturas corporais. Ao incentivar o jovem a manter vivas suas tradições e ritos sagrados ancestrais, o acompanhante assume a coragem de ser um aliado de sua resistência, mostrando que acolher o sagrado indígena é um ato de profunda fidelidade ao Deus da Vida.
ESPERANÇAR
Um sinal visível da força da Pastoral da Juventude do Meio Popular é ver que esse processo renova a esperança. Mesmo no início dessa organização comunitária, as lideranças já começam a se erguer: a participação de um dos nossos jovens na Escola Regional de Formação de Lideranças Irmã Yolanda Ferrari Dias é a prova concreta de que a juventude escolheu o protagonismo e a formação em vez do silêncio. Os encontros continuados e os espaços de missão despertam nestes jovens a consciência de sua própria voz política e espiritual.










Referências:
CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO (CIMI). Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil. Brasília: Cimi, 2025. Disponível em: https://cimi.org.br/. Acesso 24 de setembro de 2026.
JESUS, Maria Carvalho de. Juventudes e Projeto de Vida. Disponível em: https://www.faje.edu.br/periodicos. Acesso em 24 de setembro 2026.
OLIVEIRA, Carlos César de. Dissertação de Mestrado. Pastoral da Juventude do Meio Popular “cirandando” em formação: aproximações entre a pedagogia pastoral e a pedagogia libertadora. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br/. Acesso 24 de setembro de 2026.
SOSA, Arturo. Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus (2019-2029): Caminhar junto aos excluídos e caminhar com os jovens. Roma, 2019. Disponível em: https://www.jesuits.global/sj. Acesso em 24 de setembro de 2026.



