Entre luz, trevas e recomeços: as lições de Maria Madalena para as juventudes

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Ryan K. Sampaio Antonino

I. “… foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro…” 

Desde o fim do século XIX, dois grandes nomes disputam lugar na história da luz elétrica: Thomas Edison e Nikola Tesla. Entre invenções, cálculos e sistemas de distribuição de energia, ambos contribuíram para que, hoje, um simples toque em um interruptor seja capaz de iluminar uma casa, uma praça ou uma cidade inteira.

Mas a história também nos recorda que a mesma inteligência humana capaz de produzir luz foi utilizada para lançar sobre Hiroshima e Nagasaki um clarão que trouxe destruição e morte. A capacidade de produzir luz nunca impediu a humanidade de fabricar trevas. Talvez por isso o Evangelho nos apresente Maria Madalena caminhando ao encontro do sepulcro “quando ainda estava escuro”. A escuridão que a envolve não é apenas a ausência do sol, mas o luto, a dor, a dúvida e a perda do sentido. 

Quantas vezes também nós atravessamos noites semelhantes? Onde encontrar luz quando tudo parece mergulhado nas trevas? Como recomeçar quando já não conseguimos enxergar o próximo passo?

II. “… no dizer do povo, quem eu sou?…” 

Mesmo depois de tudo, ainda existe esperança? É comum ouvirmos que a esperança nunca morre. Contudo, quem espera, muitas vezes, sucumbe quando sua esperança é incompreendida, ofuscada, ridicularizada, violentada ou julgada por aqueles que o cercam.

Há algo curioso em nossa vida, sobretudo na juventude: a forma como os outros nos enxergam pode orientar nossas escolhas, moldar nossa autoimagem e comprometer o nosso bem mais precioso: a autenticidade. Em meio ao amadurecimento, surgem perguntas como: “O que farei agora?”, “O que está acontecendo comigo?”, “Quem eu sou?”. Mas talvez a mais dolorosa seja: “O que vão dizer de mim?”

Maria Madalena conheceu profundamente essa realidade. Durante séculos, sua identidade foi objeto de interpretações divergentes, consolidando-se, em grande parte, a partir de uma influente homilia de São Gregório Magno que buscou unificar diferentes personagens evangélicas. Embora o magistério também a honre como Apostola Apostolorum, seu nome ainda atravessou os séculos associado ao pecado e à vergonha. No entanto, o Senhor jamais a reduziu aos rótulos que a tradição popular lhe atribuiu.

Talvez esteja aí a primeira lição que Madalena oferece às juventudes: nossa identidade não pode ser construída a partir daquilo que dizem de nós, mas daquilo que Deus vê em nós. Cristo não se detém nas interpretações equivocadas nem nos rótulos que nos impõem. O que Ele deseja saber é se, depois do Calvário, depois da noite escura, ainda somos capazes de continuar procurando por Ele.

Uma vida autêntica é uma vida constantemente discernida e confirmada. Não há caminho fácil no seguimento de Jesus, nem na fidelidade ao sonho que brota no mais íntimo do coração. É preciso renovar, todos os dias, o “sim” a essa decisão: buscar aquilo que nos orienta em meio à escuridão e nos conduz à plenitude.

III. “… aos que habitavam na região da sombra da morte uma luz apareceu…”

É justamente quando a esperança parece morrer que Ele vem ao nosso encontro. Aos que caminham nas trevas, uma grande luz resplandece para indicar o caminho. Não chama apenas uma multidão marcada pelo preconceito e pelo medo de ser quem é; chama cada um de nós. E chama pelo nome.

Mas, para reconhecer essa voz, é preciso voltar-se. É preciso olhar para trás, como Madalena diante do jardim, e descobrir que Aquele a quem procurávamos sempre esteve ali, pronunciando o nosso nome e devolvendo-nos a verdadeira identidade.

Madalena torna-se, então, um rosto das juventudes de hoje: também nós tateamos na escuridão, sob o jugo dos preconceitos, do peso das expectativas e da lógica da hiperprodutividade.. Ela nos ensina a continuar caminhando, mesmo quando a noite parece não ter fim.

Como discípula do Nazareno, trazia no coração as palavras do salmista: “Nem as trevas são escuras para ti; a noite resplandece como o dia.” (Sl 139,11-12).

Recomeçar, todos os dias. Mesmo quando a noite parecer densa, é preciso buscar pequenas luzes que reacendam a esperança e nos mantenham em caminho. O chamado para assumir-nos n’Ele é a própria revelação de Cristo na história concreta, sem esse chamamento nominal, a nossa vida seria vazia, insignificante, sem luz.

IV. “…eu te chamo pelo o nome, tu és meu..” 

Depois que Pedro e o discípulo amado retornam para casa, Maria permanece junto ao sepulcro. Ela fica. Mesmo entre lágrimas, ainda ardia em seu coração uma pequena fagulha de esperança. Então, escuta uma voz que a consola e volta-se para a origem daquele chamado. As lágrimas ainda a impedem de reconhecer quem lhe fala, até que ouve seu nome: “Maria!”. É a voz que devolve sua identidade e confirma sua autenticidade. É Deus quem chama livremente. Ele não se submete a esquemas humanos. Ele chama quem, como e quando quer. E ele sempre nos chama pelo nome.

Maria Madalena não venceu a escuridão porque deixou de chorar. Venceu porque permaneceu procurando Aquele que amava. Antes mesmo de reconhecer Jesus, ela já havia escolhido não abandonar a busca.

Talvez seja essa a maior lição para as juventudes: a esperança não consiste em enxergar a luz, mas em continuar caminhando até que a Luz nos encontre. O dinamismo do caminho é fundamental, porque a existência humana é um grande caminhar: sair, atravessar, entrar. Madalena torna-se um rosto para as juventudes porque experimentou aquilo que todo jovem deseja: ser conhecido não pelos rótulos, mas pelo próprio nome. 

Enquanto o mundo insiste em nos dar nomes que nos aprisionam, Cristo continua pronunciando aquele nome que nos devolve à vida, uma vida livre e em abundância. É nele que encontramos coragem para recomeçar, sempre. Continuemos caminhando, junto a um Deus que é dinâmico, rumo a um futuro iluminado pela esperança.

REFERÊNCIAS

1 – Jo 20,1

2 – Mt 16, 13

3- Mulieris dignitatem, n. 16

4- Is 9,2

5 – HUBAUT, Michel. Deus te Chama pelo nome, São Paulo: Loyola, 2005, p. 12.

6- Is 43,1

7 – CNBB. Guia Pedagógico de Pastoral Vocacional, p. 17.

8 – AUTH, Romi; BOMBONATTO, Vera Ivanise. A minha alma tem sede de Deus. São Paulo: Paulinas, 2013, p. 241.

9 -OLIVEIRA, Luciana Conceição. Seguimento de Jesus. 2014. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Teologia) – Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2014, p.15

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